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Solo de Silêncio - Adubo da alma

Foto do escritor: LeFon
LeFon
31 de ago.
3 min de leitura
Edward Hopper (1927) - Automat
Edward Hopper (1927) - Automat

O que, de fato, as pessoas mais temem?

Algumas diriam: a solidão. Outras: uma doença terminal. Muitas: a morte.

Mas, olhando com mais atenção, percebo que todas essas respostas talvez apontem para o mesmo lugar — o silêncio.

Não o silêncio externo, mas aquele que surge quando já não há nada ao redor capaz de nos distrair de nós mesmos.

É o silêncio que chega quando somos obrigados a nos encarar.

Mesmo cercados de pessoas, há momentos em que percebemos que, no fundo, estamos sós. E é justamente nesses momentos que somos confrontados com aquilo que normalmente evitamos: o pensamento cru, a alma nua, o vazio que tentamos preencher com a agenda, as redes, o barulho.

Vivemos tanto para fora que, quando a vida nos empurra para dentro, entramos em pânico.

Porque olhar para dentro exige algo que nem sempre aprendemos a fazer: permanecer.

Permanecer diante dos próprios pensamentos. Das próprias escolhas. Das próprias contradições. Permanecer diante de quem somos quando já não estamos ocupados em representar aquilo que esperam de nós.

E, talvez, seja justamente por isso que o silêncio assuste tanto.

Porque ele não nos oferece respostas prontas.

Ele nos devolve perguntas.

O silêncio, tão temido, é também a morada da construção do Eu.

É nele que nascem o pensamento crítico, a escolha genuína e a possibilidade de reconexão com aquilo que, em nós, é verdadeiramente nosso.

Vivemos cercados de pensamentos prontos, discursos repetidos e identidades que, muitas vezes, apenas vestimos. Há sempre alguma coisa para acreditar, defender, consumir, seguir.

É só escolher uma.

Mas… e a sua autoconstrução?

E o seu alicerce interno?

Quem você é quando ninguém está olhando?

Quando alguém diz que tem medo de ficar só, muitas vezes não está falando apenas da ausência de companhia.

Talvez esteja falando do medo de encontrar, no silêncio, um vazio que nunca aprendeu a preencher consigo mesmo.

Um vazio sem repertório interno para dialogar, questionar, elaborar e, principalmente, ressignificar.

E é aqui que a solidão deixa de ser apenas ausência.

Ela pode se tornar espaço.

Espaço para descobrir quem somos, o que nos move e quais partes de nós existem porque realmente escolhemos — e quais apenas carregamos porque um dia nos ensinaram a carregá-las.

A doença também pode nos colocar diante desse silêncio.

Quando o corpo impõe limites, interrompe ritmos e nos obriga a parar, somos confrontados com uma pergunta que, na correria, muitas vezes adiamos:

O que realmente importa?

Não se trata de romantizar a doença ou atribuir a ela um sentido que talvez não tenha. Trata-se de reconhecer que, quando a vida nos lembra da nossa própria fragilidade, somos convidados a olhar novamente para aquilo que escolhemos priorizar.

A doença pode ser um limite. Uma interrupção. Uma pausa.

E, nessa pausa, talvez surja a oportunidade de pensar sobre tudo o que aprendemos ao longo da vida — e sobre aquilo que, caso não haja um amanhã, será indispensável e inegociável para que possamos dizer, sem medo:

“Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé.”

E então chegamos à morte.

Talvez o maior silêncio de todos.

A morte não responde. Não negocia. Não explica.

Ela apenas nos lembra de algo que preferimos esquecer: a vida é finita.

E justamente por ser finita, ela carrega urgência.

A urgência de viver com verdade. De escolher enquanto ainda podemos escolher. De dizer o que precisa ser dito. De deixar ir o que já não nos pertence. De descobrir, antes que o silêncio seja definitivo, quem fomos e quem decidimos ser.

Talvez seja por isso que o silêncio assuste.

Porque, quando o barulho desaparece, não há mais para onde fugir.

Mas talvez também seja por isso que ele seja tão necessário.

O silêncio, quando acolhido, deixa de ser ausência e se torna presença.

Uma presença que nos devolve a nós mesmos.

É nele que podemos perceber que, embora o coletivo seja essencial, existe uma parte de nós que só pode ser conhecida quando estamos a sós.

A parte que pensa antes de repetir.

Que escolhe antes de seguir.

Que questiona antes de aceitar.

Que reconhece suas próprias contradições.

Que constrói, pouco a pouco, aquilo que chamamos de Eu.

Talvez a verdadeira solidão não seja estar sem ninguém.

Talvez seja estar consigo mesmo e não saber quem encontrar.

E talvez o silêncio não seja aquilo que precisamos temer.

Talvez seja aquilo que precisamos aprender a escutar.

O silêncio não é ausência; é presença que ainda não se pronunciou.

 
 
 

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